Cantares Ares de Oracy Dornelles

Oracy reside em Santiago-RS onde nasceu. OFÍCIOS: pintor cartazista, decorador, desenhista de publicidade, caricaturista, escultor, perito em grafologia judiciária e poeta. ESPECIALIDADE: micropinturas em superfícies microscópicas: grãos de soja, pauzinhos de erva-mate, cabeças de alfinete e fios de cabelo. PUBLICAÇÕES:Agonias das Trevas, Santiago, 1954; Belkiss, Santiago, 1955; Ninguém e mais e eu, Santiago, 1959; Poemas Opus 4, Santa Maria, 1981; cantares ares, Porto Alegre, 1992.










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Sexta-feira, Setembro 23

POEMA

Leve,
esvoaças o terreno
e germinam sementes os teus pés,
céleres, inquietos. . .

Teu verbo ignoto,
teus hiatos informes
diluem-se
na angústia
e na interrogação de teu corpo
leve. . . leve
talvez demais
para o segredo de chumbo que tens nalma,
e que arrastas
estóica,
para a glória da esperança conquistada,
em solidão.


do livro poemas opus 4


Quinta-feira, Setembro 22

POEMA

Fio de bruma pareces,
mas és tátil e te adensas
no sorriso
quando amanheces toda.

Nada em ti é fragmentário,
até tua pequena tristeza
é curadora.

. . .Uma estrela pública
constelando
os corredores da repartição. . .

Do fundo da sala
espero que passes
o percurso de teu riso
em relâmpago. . .
E sóis, cometas, sistemas inteiros,
anos-luz de esperança
chispam
de um canto a outro da porta.


do livro poemas opus 4


Quarta-feira, Agosto 17

ESTRANHOS E FALSOS SONETOS
DE 14 LETRAS



SONEMÍNIMO Nº 1


V i s o
i
s
o

R i s o
i
s
o,

N ã o
ã
o

P ã o
ã
o.



SONEMÍNIMO Nº 2


T e l a
e
l
a

B e l a
e
l
a:

P u s
u
s

L u z
u
z.


SONEMÍNIMO Nº 3


C o p o
o
p
o?

T o p o
o
p
o.

T i n
i
n-

t i m
i
m?!



SONEMÍNIMO Nº 4


T u d o
u
d
o

M u d o
u
d
o...

R u a
u
a

N u a
u
a.



SONEMÍNIMO Nº 5


Z e l o
e
l
o

P e l o
e
l
o

T e u
e
u

V é u
é
u.



SONEMÍNIMO Nº 6


C a t a
a
t
a

L a t a
a
t
a

P o r
o
r

C o r
o
r.



SONEMÍNIMO Nº 7


B o l a
o
l
a

C o l a
o
l
a

N a s
a
s

P á s
á
s.



SONEMÍNIMO Nº 8


C a r o
a
r
o,

R a r o
a
r
o

B o m
o
m-

b o m
o
m.



SONEMÍNIMO Nº 9


P e l o
e
l
o

G e l o
e
l
o

S a i
a
i...

C a i
a
i!



SONEMÍNIMO Nº 10


S a i o
a
i
o:

M a i o
a
i
o,

P a z
a
z.



do livro cantares ares


Quinta-feira, Agosto 4

SONEMÍNIMO PERFEITO
PARNASIANÍSSIMO DE 24 LETRAS



É

e


A
que
te



na
Sé.

Se
a
é.



do livro cantares ares


Segunda-feira, Agosto 1

BRASÃO

Opaco ao olho comum
e indiferente ao cotidiano, pois exato.

À borda esquerda do cálice
uma gota branquíssima retrata
a fugacidade da vida na deserção das pétalas.

Sonho e realidade —
divisão transversal em prata e ébano.

Ali,
florete de ouro tinindo,
ágil, no orgulho
tinindo.

Aqui,
bizarria de cores
presidindo a vida — Ideal —
remate de nuvens
na esmeralda do nome.


do livro poemas opus 4


Domingo, Julho 10

POEMA

Alquímico relevo em medalhão antigo —
bizarra face de Cris:
quando passas,
deixas rastros de outras vidas
nos séculos de amor do fundo de teus olhos.

Teus lábios em gaivota
povoam mares de solidão,
e os gestos náufragos
submergem
no teu sorriso cruel.

E vais. . . E passas. . . E passarás
pelos milhões de anos que temos pela frente. . .
E amanhã,
num planeta qualquer de outro sistema
reascenderão teus olhos-luz,
cheios de mundo,
acenando ao desterrado. . .



do livro poemas opus 4





Domingo, Julho 3

ANTIGO

ah, tempo dos álbuns e dos acrósticos!
cada crucifixo de soneto!
a rima de cima em forma de canga
e em decúbito dorsal
o nome da camanga





CARTOMANTE


Quando pergunto — vem um caixão de defunto.
Quando me abato — vem um rato.
Quando a repulso — vem um urso.

— Afinal, só coisas ruins?
E o futuro, que me aponta?
A conta.





X X X


Haverá o dia
em que todas as loucuras serão lícitas,
até a de gostar-te.

Aí me epitafio:
jazo por ti.





QUADRO


Pisa o sol no horizonte
enorme pesos de luz,
e as nuvens desatam-se em desalinho
como um cadarso...

Um rataplan de formiguinhas de asas
anuncia o fim de tarde
coreografando o quadro
em zoom:
é ali...
Opa! Queimei meus dedos de sol!




do livro cantares ares


Segunda-feira, Junho 6

ATUAL

Tua beleza
não será toque filosofal de arte
ou sino;

nem desejada por requintes
ou idiotas.

Tua beleza
não será um fato bizarro,
tampouco simples.

Tua beleza não será: é !



POEMA

Quintilhões de mim mesmo
em discussão
amarga.
O poeta insone
insiste,
e a esfinge em riste
deblatera
o porquê.

O noivado das auras
é um fato,
o adeus
real.

Volto à mente:
labirinto em dimensões desconhecidas —
e ela sempre lá,
aquela voz !. . .
Em flecha, em mosca, em dardo,
em vento !

E a hora e o instante
lá !
Fixo, perpetuado,
amado
e morto. . .
No retângulo branco
do irremediável
adeus!. . .



do livro poemas opus 4


Segunda-feira, Maio 23

TARJA ROMÂNTICA


A que morreu de amor repousa nas montanhas,
na planura das sebes e nos ventos. . .
A que morreu de amor voltou à sua origem
aromatizando a noite (flor que era)
para o sonho dos faunos esquecidos.
A que morreu de amor zombou dos aparatos,
Não teve mausoléus para a continuidade
da pompa coagulada dos vivos.


A que morreu de amor
foi só.


(Ninguém foi vê-la morrer naquela noite. . .)


Seu destino foi um lago translúcido e intocável —
ancoradouro dos seus sonhos.
Seu destino foi um mistério adormecido —
credor de sua angústia.
Seu destino foi uma folha calcada de tristeza
na solidão do seu outono.



do livro poemas opus 4